Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ophélia

Livros. Filmes. Música. Poemas.

Ophélia

Livros. Filmes. Música. Poemas.


Publicado por Patrícia Caneira

23.01.21

E pimbas! Estamos confinados outra vez. Por aqui estou em casa já desde o Natal, quando terminei o meu contrato de trabalho que viria a ser substituído por outro mais alargado no final deste mês mas tenho plena noção que no meio de tantas medidas e ajustamentos tal pode não acontecer. Felizmente tenho a sorte de poder ficar por casa enquanto me dedico a 100% à tese. Sei que não existem muitos como eu e que estes são mesmo tempos dificeis, por isso, para os que os atravessam com maior penumbra, muita força!

No entanto, estar com saúde (pelo menos por enquanto), ter um tecto e uma vida estável por vezes não chega e o confinamento trouxe consigo alguns medos e ansiedades que se manifestam principalmente em mau estar físico, dificuldade de concentração e pouca produtividade. Mas isto não é sinal para abrandar e deixar-me ir com a corrente, pelo contrário. Nos últimos dias tenho tentanto encontrar formas de confinar melhor e como sei que não estou sozinha nisto de não saber viver na incerteza, deixo-vos três coisas que me têm feito muito bem nesta nova quarentena. 

2.jpg

10 minutos de yoga 

Descobrir o canal da Yoga With Kassandra foi quase um milagre para mim. Não consigo correr com o frio e estar o dia todo sentada à secretária era algo que me incomodava, até porque se torna o cenário perfeito para ganhar peso e essa é uma barreira que não quero cruzar. Assim propus-me a todos os dias de manhã, depois do pequeno-almoço acompanhar um dos vídeos da Kassandra e fazer cerca de 10 minutos de yoga. Não só me ajuda a ganhar energia e relaxar o corpo como também é das melhores atividades para a minha mente inquieta. Existem muitos vídeos de curto tempo e próprios para iniciantes por isso ninguém precisa de ser pró para experimentar. 

Ouvir música nova

A música é o melhor remédio e contra factos não há argumentos mas das coisas que mais gosto é o desafio de procurar músicas novas que realmente se encaixem com o meu estado de espírito. Neste momento o galardão vai para Jackson Browne e a sua maravilhosa "Late for the sky" e também para Dispatch e a música que tenho ouvido em loop "Year of the woman". 

Ler, ler, ler

Óbvio que isto não é uma dica inovadora, muito menos para quem me lê e para comigo mesma mas se há coisa que me ajuda a viajar nestes dias de confinamento e chuva são os livros. Impulsionada pelo desafio de janeiro da Rita da Nova, comecei a ler o Mataram a Cotovia, uma obra pertinente e necessária que já estava na minha lista há muito tempo e que até agora me tem tirado todos os dias um bocadinho da realidade. 

E vocês o que têm feito para aguentar o barco?


Publicado por Patrícia Caneira

15.01.21

image.png

O meu primeiro livro de 2021 é também o último de 2020, o que é uma pequena vergonha mas também uma grande vitória. Recebi A Mulher Que Correu Atrás do Vento de João Tordo como presente de aniversário em março do ano passado mas só em setembro o comecei a ler. Já andava a namorar a obra e queria muito ler algo do autor por ouvir coisas tão boas a seu respeito, no entanto, assim que vi o tamanho do livro sabia que ia ser um desafio para mim já que não sou de "calhamaços". 

Para mim os livros devem ter um tamanho médio, o suficiente para me envolver na história mas também o ideal para não me deixar arrastar nas páginas. E por isso demorei mais tempo, mais precisamente alguns meses. Mas atenção, tamanho à parte sinto-me segura em dizer que este foi dos melhores livros que li até hoje. 

Estás enganada, riposta Jaime. Nós somos os nossos pais, somos o que há de pior num, e o que há de pior no outro. 
E porque não o melhor? 
Porque, se a vida fosse assim, já seriamos perfeitos. A raça humana tem milhões de anos. Não achas que, se os filhos fossem o melhor dos pais, e os filhos desses filhos também, e assim por diante, a evolução teria ido noutro sentido?

A Mulher Que Correu Atrás do Vento conta a história de quatro mulheres: Lisbeth, Beatriz, Graça Boyard e Lia, que existem em décadas diferentes mas que têm um destino que as une a todas, muitas vezes sem saberem. Os capítulos são contados na voz destas mulheres que intercaladamente falam das suas chegadas e partidas, do amor que vem por vezes sob a forma de buraco sem fundo, sobre a dor de existir e sobre o facilitismo de largar a vida. 

Este é um livro extremamente completo não só porque dentro dele existem dezenas de histórias, todas bem construídas e fundamentadas mas também porque as personagens que surgem são humanas e iguais a todos nós. As referências literárias e musicais de João Tordo que aparecem ao longo das páginas provam também que este merece (e muito) ser um dos autores portugueses de maior destaque. 

O final vem em jeito de relato pessoal, onde o autor encarna Beatriz e nos conta a razão deste romance, atirando-nos para uma reviravolta inesperada, o que em grande parte me leva a colocá-lo no Top 3 dos melhores livros que já li.

E vocês já leram esta obra? O que mais aconselham do autor?

A Mulher Que Correu Atrás do Vento
João Tordo
504 páginas
★★★★☆
 

 


Publicado por Patrícia Caneira

27.12.20

Sim eu sei que o ano ainda não acabou (infelizmente) mas nada me impede de começar a sonhar com um ano mais leve, mais simples e certamente com mais livros na prateleira. Dessa forma trago, de um jeito modesto, três livros que quero ler em 2021, todos por razões diferentes e alguns um bocadinho mais que outros.

A Man Called Ove.jpg

Sobre Sally Rooney já correu muita tinta não só em blogs como também um pouco por todas as redes sociais. Eu, que geralmente ignoro as coisas sobre as quais muito se fala, tal como fiz com Game of Thrones ou La Casa de Papel, tenho sentido uma atração profunda sobre o Normal People e até a série continua arrumada na gaveta porque me impus a mim mesma ler a obra primeiro. Normal People conta a história de Connell e Marianne, que cresceram na mesma cidade mas que durante a vida foram linhas paralelas que se cruzaram algumas vezes pelo caminho. O que sei é que é um livro sobre amor, desamor, amizade, angústia, solidão e medo. Sei também que não é nenhum Nobel da Literatura nem uma obra complexa que nos vem tirar o chão mas acredito (mesmo ainda sem ter lido) que é uma história simples que nos vem ensinar algo. Mais não seja a apreciar as coisas mais básicas. 

A Man Called Ove, foi dos últimos livros que ouvi falar. Emocionante é aquilo que todas as reviews têm dito e se eu sou uma pessoa que gosta de chorar acho que não existe aposta mais certa que esta. Não sei se será apenas mais uma obra feita com os ingredientes certos para apelar às emoções mas se for confesso sem vergonha que estou bem com isso, tal como estive quando O Milagre na Cela 7 se tornou viral. 

Por o último mas em primeiro nesta minha lista está o Nobel da Literatura de Olga Tokarczuk, Conduz O Teu Arado Sobre Os Ossos Dos Mortos. Encontrei este livro enquanto olhava para as promoções no site da Bertrand e não só o nome como a capa me despertaram imediatamente a atenção. Depois fui ler o resumo, "sob a máscara de policial noir ou fábula macabra, Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos é um romance mordaz e desconcertante que questiona a nossa posição acerca dos direitos dos animais e responsabilidade sobre a natureza, bem como todas as ideias preconcebidas sobre a loucura, a justiça e a tradição". Achei que tudo isto só podia dar origem a uma obra daquelas que nos fica para a vida e desde aí que ando louca para o comprar, ignorando de forma inocente todos os livros que ainda tenho para ler aqui por casa. 

E desse lado, já leram alguma destas obras? Acham que valem mesmo a pena?


Publicado por Patrícia Caneira

30.09.20

52DDFE67-DF8D-4E5E-A0E7-401F8723B365.JPG

Andava em busca da maravilhosa Jane Austen há algum tempo. Sempre que entrava numa Bertrand ou numa Fnac lá ia eu procurar o Orgulho e Preconceito mas por essas mesmas razões, orgulho e preconceito, acabava por nunca trazer o livro comigo: ou a capa não era a que tinha idealizado, ou a edição era em inglês ou até mesmo o preço me incomodava.

Contrariamente ao que costumo fazer, antes de ler a obra já tinha visto o filme, que rapidamente se tornou num dos meus favoritos, já que adoro filmes de época e porque a história de uma jovem rapariga que no início do século XIX se recusa a casar e se apresenta como revolucionária e independente me conquistou de imediato.

Se os seus sentimentos são iguais aos que tinha em abril passado, diga-me de uma vez. As minhas afeições e desejos estão inalterados, mas uma palavra sua silenciar-me-á isto para sempre.

A história deste clássico foca-se na família Bennet, composta pelo Sr. Bennet, a mulher e as suas cinco filhas: Jane, a mais velha e mais bonita, Elizabeth, a determinada, Mary, obcecada pelas suas leituras, Kitty e Lydia, as mais novas da família, dotadas de uma grande despreocupação e sentido de humor. 

Tudo gira em torno da importância do casamento perante a sociedade, já que para viverem uma vida estável, todas as filhas deveriam casar com um homem de grande fortuna. A aventura começa quando o encantador Mr. Bingley dá um baile em Netherfield, em Inglaterra, onde se faz acompanhar por Mr. Darcy, um homem frio e de poucas palavras. Quando o primeiro vê em Jane a sua grande paixão, o segundo, sem o expressar claramente, fica encantado por Elizabeth, que na minha opinião é o sumo de toda esta história. 

Jane Austen fez um trabalho brilhante com esta obra (e seguramente com outras, embora este tenha sido o único livro que li da autora até ao momento), não só através da irreverência com que coloca como personagem central, uma mulher que procura mais do que um marido, uma vida culta e um futuro para si mesma, num romance escrito em 1797 mas também pela construção e evolução que cada personagem, mesmo as mais discretas, têm ao longo destas 280 páginas. 

A adaptação cinematográfica é uma das minhas preferidas como disse e felizmente a obra não ficou nada atrás. Aliás, despertou-me a curiosidade não só para ler outros livros da escritora mas também para ler algumas obras relacionadas com Orgulho e Preconceito, como é o caso de A Independência de Uma Mulher de Colleen McCullough, que conta a história de Mary Bennet, a irmã do meio cujo futuro fica em aberto na obra de Jane Austen.

E vocês já leram algum destes livros? O que acharam? 

Orgulho e Preconceito
Jane Austen
280 páginas
★★★★☆


Publicado por Patrícia Caneira

09.09.20

Pois é, estou de volta! Agosto foi um mês dedicado ao descanso, mais longe das redes sociais e mais perto da família. Descansei, apanhei sol, lavei a alma e agora estou de volta para me dedicar de corpo e alma a motivos académicos. Numa das redes sociais do lado até já coloquei o aviso de que vou hibernar até março, pode ser que assim os amigos desculpem as minhas ausências nos próximos cafés. Mas por aqui, vou cumprir o objetivo de pelo menos vos contar o que anda na minha mesa de cabeceira.

846407ED-0AD2-47DD-B5D8-55DEAFB39E98-0E9CA312-679C

No entanto, apesar do descanso tenho tentado manter o meu ritmo de leituras. Em agosto terminei o Orgulho e Perconceito de Jane Austen, que deu origem a um dos meus filmes favoritos e do qual vos falarei num post próximo. Agora abri portas a João Tordo e ao seu A Mulher que Correu Atrás do Vento e meu deus, ainda agora comecei e já estou rendida, a genialidade com que o autor relaciona personagens em tempos e vidas diferentes faz com que seja difícil colocar a leitura em pausa. 

E vocês, quais foram as grandes leituras deste verão?


Publicado por Patrícia Caneira

06.08.20

864FA288-D6EA-4685-97CB-70CD73FBDE2E-69E6E917-BE2DA primeira vez que li Paulo Coelho tinha 16 anos e foi-me lançado um desafio na aula de Português, tínhamos de escolher um livro especial para apresentar a toda a turma. Chegou-me em formato livro de bolso o Veronika Decide Morrer que rapidamente se tornou um dos meus livros favoritos e moldou também o meu gosto pela leitura. 

Muitos anos depois, o desejo de ler novamente algo de Paulo Coelho foi crescendo, o objetivo era ler O Alquimista mas numa feira de antiguidades surgiu a oportunidade de comprar livros em segunda mão e não hesitei quando encontrei o Onze Minutos em ótimo estado e a ótimo preço.

O pecado original não foi a maçã que Eva comeu, foi achar que Adão precisava de partilhar exatamente o que ela havia experimentado. Eva tinha medo de seguir o seu caminho sem a ajuda de ninguém, então quis partilhar o que sentia. Certas coisas não se partilham.

Esta obra conta a história de Maria, uma rapariga natural do Brasil, dotada de uma beleza marcante, que sonha com uma vida melhor. Depois de várias desilusões com o amor, Maria é levada para a Suíça para trabalhar numa bôite, como prostituta. Onze Minutos não explora apenas o sexo e a sexualidade mas sim o amor-próprio, a descoberta do corpo, da alma, da dor, do sofrimento e até mesmo do amor. 

Comparando com o primeiro livro que li de Paulo Coelho, não posso dizer que esta é uma obra incrível mas considero-a uma obra leve e que relata um tema interessante que não aparece nas estantes muitas vezes. Uma outra vantagem de ler Paulo Coelho é que a escrita do autor é acessivel e envolvente, a ação vai-se desenrolando sem grandes fogos de artifício, com o objetivo de que todos os que se interessam por histórias a possam compreender. 

E vocês já leram Paulo Coelho? Qual a vossa obra favorita do autor?

Onze Minutos
Paulo Coelho
288 páginas
★★★☆☆

 


Publicado por Patrícia Caneira

20.07.20

0542876C-2D79-45CB-B672-EA834090963A.JPGAssim que comecei a ser uma leitora mais assídua que muitas vezes ouvi e li "quem gosta de livros e de escrever não pode morrer sem ler Vargas LLosa". Como não sabemos nada desta vida nem deste mundo não quis dar chance de acontecer algum percalço pelo caminho e não chegar a tempo de ler o autor. Foi assim que numa boa promoção me chegou cá a casa Travessuras da Menina Má. No entanto, esta não foi uma leitura linear, confesso.

Para começar cometi a grande asneira de comprar o formato livro de bolso e isso  dificultou-me bastante a vida, já que as 384 páginas em letras pequeninas me desmotivaram. Depois, comecei a ler a obra e percebi que me exigia alguma concentração, não que a escrita de Vargas LLosa seja algo impossível mas porque a contextualização histórica e todo o enlace pedem-nos foco máximo. 

Posto isto, demorei algum tempo a chegar a meio do livro mas assim que lá cheguei a segunda metade foi lida numa só manhã. Travessuras da Menina Má conta a história de um amor de uma vida inteira onde Ricardito se apaixona em miúdo pela menina má e mais tarde, a viver o seu sonho em Paris, reencontra-a novamente, o que muda a sua vida para sempre.

Ao longo da obra a menina má muda de país, de figura e até de nome e vão-se dando encontros com Ricardito,ou o menino bom como ela lhe chama, muitas vezes casuais e outras nem por isso. Em suma, o romance de Mario Vargas Llosa conta uma história de vida e de amor, onde o amor não é suficiente principalmente quando quem ama são opostos que buscam coisas completamente diferentes. De um lado, a menina má que encarna a ambição, o poder e a riqueza e do outro, o menino bom, que só ambiciona viver em Paris modestamente e desfrutar de um café numa esplanada.

- Tens ciúmes? Disse-lhe que sim, muitos. E que estava tão bonita que venderia a minha alma ao diabo, o que quer que fosse, só para fazer amor com ela ou, sequer, beijá-la. Peguei-lhe na mão e beijei-a.

Não desvendando mais, porque este é um livro que realmente todos os amantes de leituras e escrita devem ler antes de morrer, apelo a que não tenham medo de se aventurar em obras mais complexas nem de demorar o vosso tempo a devorá-las e compreendê-las. A magia dos livros é que nos tocam a todos com ritmos e intensidades diferentes. 

E vocês, já leram Mario Vargas LLosas? O que acharam?

Travessuras da Menina Má
Mario Vargas Llosa
384 páginas
★★★★☆


Publicado por Patrícia Caneira

15.06.20

IMG_5706.PNG

O livro de maio, que consta da lista que escrevi aqui, só foi terminado em junho por força das circunstâncias, que acredito definirem sempre as leituras. Chegou à minha estante há alguns anos emprestado por uma amiga que achou que ia identificar alguém próximo com a personagem. Assim foi. J. D. Salinger não tem uma escrita difícil e a história de Holden é fácil de entender até porque quem é que não percebe de solidão, rebeldia e descontentamento?

 À Espera no Centeio é uma ode aos inconformistas, que conta através de Holden Caulfield os dias seguintes à sua expulsão do colégio cheio de "armantes" e cretinos onde os pais o tinham inscrito. Esta é uma história sobre um miúdo cheio de sarcasmo e vazio de companhia, que nos mostra ao longo dos capítulos que está só e que não vê o seu lugar no mundo em parte nenhuma. Fala-nos da inocência de ser jovem e da dureza da vida adulta.

Mas enfim, ponho-me a imaginar uma data de miuditos a brincar a um jogo qualquer num grande campo de centeio e tal. Milhares de miuditos, e ninguém por perto, ninguém crescido, quero eu dizer, a não ser eu. E eu fico ali na borda de um abismo lixado. E o que eu tenho de fazer é ficar à espera no centeio e apanhar todos os que desatarem a correr para o abismo (...). Era só isso que fazia o dia inteiro. Só estar ali à espera, a apanhar os miúdos no centeio e tal. Eu sei que é uma coisa maluca, mas é a única coisa que eu gostava de ser.

Publicado em pleno século XX, este foi um dos maiores sucessos de Salinger e diria que isto se justifica pela capacidade que tem em se adaptar aos tempos. Ler À Espera no Centeio hoje ou daqui a 50 anos comportará a mesma atualidade que tinha em 1951. Não é um livro com um final surpreendente nem com um enrendo incrível mas é um livro necessário a todas as prateleiras, não só porque nos ensina a criar empatia mas como também nos mostra, entre sarcasmos e frases súbtis, que o amor está nas saudades. 

 E vocês já leram À Espera no Centeio

À Espera no Centeio
J. D. Salinger
240 páginas
★★☆☆☆

 

 


Publicado por Patrícia Caneira

06.05.20

Pois é, eu devia vir aqui escrever sobre Travessuras da Menina Má. Mas falhei, preciso de mais tempo para chegar ao fim da obra de Vargas Llosa. E confesso que quando A Educação de Eleanor me chegou cá a casa, não resisti. Ler livros em horas ou dias fascina-me porque significa que são bons, mesmo bons. No entanto, vi-me forçada a parar a leitura contínua quando me lembrei que tinha dois manuais enormes para ler sobre jornalismo e conflito. Foi exatamente por isto, que não o devorei num só dia. Foram precisos dois.

B45B4C81-0DB7-4D21-BE06-EA8E629CB416.jpg

Não é por acaso que a obra de Gail Honeyman é um bestseller, nem é por acaso que este foi eleito o livro do ano pela British Book Awards. É porque este é um livro completamente diferente de tudo o que até hoje tinha lido. Não é o primeiro que me faz chorar mas é certamente o primeiro que num capítulo me tem a rir à gargalhada e no segundo me deixa em lágrimas. Essa é uma das magias da obra. A outra grande magia é Eleanor Oliphant. Que personagem!

O livro conta a história de Eleanor, uma mulher nada dada a interações sociais, com uma rotina certa que se baseia em trabalhar de segunda a sexta, beber vodka durante o fim de semana e estar sozinha. Como sempre esteve. Mas esta solidão e dificuldade de interação, tem motivos válidos que vamos percebendo ao longo da história. Não é apenas a questão de um mau passado, nem de dificuldades que para mim são inimagináveis mas que sei que existem. É que Eleanor nunca foi amada, por ninguém e isso é caso sério. 

Há pessoas, as mais fracas, que temem a solidão. O que não compreendem é que há nela algo de muito libertador; assim que percebemos que não precisamos de ninguém, podemos cuidar de nós próprios. É precisamente essa a questão: é melhor cuidarmos só de nós próprios. Não podemos proteger as outras pessoas, por mais que tentemos. Tentamos, e falhamos, e o mundo desmorona-se à nossa volta, reduzindo-se a cinzas. 

Durante o seu caminho, cruza-se com um colega de trabalho e ambos assistem ao acidente de um velhote, Sammy. Graças a este episódio a vida de Eleanor dá voltas e cambalhotas e tudo aquilo que tinha como garantido deixa de ter. Mas não vos quero dizer mais nada, porque a delícia desta obra está em mergulharem sem saber bem ao que vão. 

A solidão, o passado, a perda, as pessoas, as interações. O que esperam de nós e o que nós esperamos da vida. Não sei se alguma vez esta história me vai sair do peito, confesso que tenho um nó na garganta que teima em não sair desde que acabei o livro. Gostava de um dia encontrar Eleanor ao acaso na rua e abraçá-la, sem dizer nada. Trocar as palavras por gestos, tenho a certeza que ela entenderia tudo o que quero dizer. 

Até hoje, quando me perguntavam qual o meu livro favorito tinha alguma dificuldade em dizer apenas um, rondava uns três ou quatro que estão no topo da lista, mas nenhum em concreto. Agora já tenho resposta. 

E por aí, já leram A Educação de Eleanor? O que acharam? 

A Educação de Eleanor
Gail Honeyman
328 páginas
★★★★★
 
 


Publicado por Patrícia Caneira

02.05.20

Isto das memórias tem muito que se lhe diga. Volta e meia embriagada na nostalgia, dou por mim a pensar que tive uma infância recheada de coisas boas. Esta semana, quando me deu aquela saudade de ouvir as chávenas de café nos balcões, lembrei-me que sou uma sortuda por ter uma estante com muitos livros. 

9D4B92C7-6B17-4E9B-8BD7-017EA56710FA.JPG

Rosa, Minha Irmã Rosa, é o livro da minha infância. Sem querer mandar em ninguém, aviso já que devia ser leitura obrigatória para toda a gente. Não só para os mais pequenos, mas para todos mesmo. Alice Vieira tem o dom de contar histórias bonitas e marcantes através de uma escrita simples e sensível. Foi assim que me apaixonei por esta obra, que conta a história de Mariana, filha única que aos dez anos vê nascer a irmã. A partir daí, chega a grande questão: as atenções já não estão todas nela, vai ter de partilhar tudo com Rosa. E nem sequer sabe se gosta dela ou não.

Quando estou triste, gosto de ter flores ao pé de mim. Mas não é preciso que cheirem ou que sejam daquelas de pés muito altos a dormir na montra da florista. Só é preciso que estejam ao pé de mim. Que eu olhe para elas e sinta que estou tão acompanhada como se elas fossem pessoas. Sinto que há flores que nunca me poderiam fazer companhia. Os antúrios e as estrelícias, por exemplo, a delícia da minha tia Magda.

Não vou mentir e dizer que não me tocou especialmente por também eu ser filha única e por conseguir através da Mariana sentir o que é ter uma irmã, alguém por quem daríamos a vida sem pensar duas vezes, mesmo que ao início tudo seja estranho. Hoje, 13 anos depois continuo a achar que o Rosa, Minha Irmã Rosa é o livro infantil mais bonito que existe, não fosse ele ter-me ensinado em tenra idade o que é isto do amor. 

Se têm aí por casa crianças amigas dos livros, este é um presente certeiro. Confiem, daqui a uma década elas ainda se vão lembrar da Rosa e da Mariana. E é isso que torna um livro para a vida toda. 

Caso não existam pequenos desse lado, dediquem-se um bocadinho às vossas memórias (vocês sabem que agora não nos falta tempo) e digam-me lá: qual é o livro da vossa infância? 

Rosa, Minha Irmã Rosa
Alice  Vieira
120 páginas
★★★★☆
 

Sobre mim

foto do autor

Ophélia está a ler

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub