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Ophélia

Livros. Filmes. Música. Poemas.

Ophélia

Livros. Filmes. Música. Poemas.


Publicado por Patrícia Caneira

01.02.21

Dói-me o peito. 
Não consigo respirar.
Sei que não estou a morrer mas há tantos que estão.
Sei que passa, vou respirar fundo para um saco de papel, vou esticar os braços ao alto, vou ouvir música, vou comer gelados.
Vou ganhar peso.
Dói-me o orgulho.
Não consigo emagrecer.
Sei que não tem problema mas há tantos que não comem porque os tubos não deixam.
Dói-me a cabeça.
Falo comigo a toda a hora sem parar.
Não me consigo concentrar.
Sei que consigo dizer para as vozes se calarem mas há tantos que partem sem falar com ninguém.
Tenho a cara cheia de borbulhas.
Já experiementei todos os cremes da montra e aparecem sempre mais.
Sei que ninguém me vai ver mas também ninguém vê os que chegam de máscara já de olhos fechados.
Estou num buraco fundo.
E amanhã a meteorologia diz que o sol ainda brilha de manhã.
Sei que vou tentar outra vez mas há tantos que tentam e não conseguem salvar toda a gente.
Estamos num buraco fundo.
E se há corda que nos salvem então que a mandem agora.
Morreremos todos com isto: uns para sempre e outros aos pedacinhos.
Então tragam cola, tragam flores e tragam vinho.
Mesmo longe havemos de fazer a dor doer menos.

Patrícia Caneira


Publicado por Patrícia Caneira

06.07.20

A minha terra tem gente com muitos anos,
Que nunca vergou com o tempo.
Mas a minha terra também tem gente que ainda agora nasceu,
E já fala de punho feito nas raízes que ali criou.
Da minha terra saem homens e mulheres que trabalham de sol a sol,
Que chegam ao fim do dia em busca de uma lareira que crepita devagar,
E anuncia na vizinhança que ali mora alguém.

A minha terra tem gente que com as mãos deu à luz,
Amassa o pão,
Sente a água fria do tanque,
E borda com cores vibrantes os tecidos brancos escolhidos a dedo.
A minha terra não é paragem de turistas,
Mas é morada de casa.
A minha terra é mais do que uma igreja,
Mais do que bancos de jardim.
Mais do que largos ocupados por pedras da calçada.
A minha terra é feita de gente.
Gente que lhe dá nome e história,
Que recebe todos os que passam de sorriso largo e voz alta.
Não fosse esta gente, verdadeiramente ribatejana.
A minha terra é feita de alma,
Que está presa dentro de toda esta gente.
Que se esconde no luto que veste,
Nas músicas que canta,
E nas flores que colhe dos quintais.
A minha terra é a mais bonita do mapa,
Mesmo que por vezes nem lá apareça.
E é no segredo escondido da charneca,
Que vive a minha gente,
Alimentada a alma e tradição.

Patrícia Caneira

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